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Razes Histricas das Modernas Teorias da Ansiedade

TEM sido DITO que, na Amrica, partimos do princpio de que a Histria comea com a leitura das atas da 
ltima assemblia geral. Ou, mais especificamente, em Psicologia, que a Histria comea com os resultados do 
nosso ltimo experimento. 
Esta atitude anti-histrica  um fruto inteiramente compreensvel dos nossos antecedentes de fronteira, como 
assinalarei mais adiante; todo o homem de fronteira teve, de fato, de partir do nada. Mas s Cincias Sociais 
parece faltar, em particular, um sentido dinmico de como a Histria as amolda e forma, o que as faz parecer 
especialmente truncadas pela suposio no-analisada de que elas brotam, como Palas Atenas, inteiramente 
armadas e equipadas da cabea de algum Zeus do sculo XIX. E, em especial, a Psicologia foi depauperada 
pela falta de um sentido orgnico e dinmico de Histria. Pois se no sentirmos concretamente o fato de que as 
pessoas que estudamos, assim como os nossos prprios mtodos e os nossos prprios eus, so produtos de 
muitos milhares de anos de tarde, linguagem, explorao, reflexo e outros aspectos da conscincia humana 
emergente, ter-nos-emos cortado das nossas prprias razes. Desligarmo-nos da Histria  sinnimo de cortar 
o nosso vnculo arterial com a humanidade. 
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Uma perspectiva histrica ajudar-nos- a ver como certas foras e eventos culturais moldaram as atitudes e os padres de 
comportamento subjacentes em nossos conflitos psicolgicos contemporneos. Uma perspectiva histrica tambm pode 
ajudar a libertarmo-nos do perigo onipresente  em especial, de um perigo nas Cincias Sociais  de considerar absolutos 
uma teoria ou um mtodo que, na realidade, so relativos ao fato de que vivemos num dado momento do tempo, no 
desenvolvimento da nossa cultura particular. Finalmente, uma perspectiva histrica pode-nos ajudar a ver as causas 
comuns tanto dos problemas como dos objetivos humanos. 
Mas a nossa tarefa, neste captulo, no consiste, simplesmente, em acumular fatos histricos. Procuramos, antes, 
compreender a histria como um processo dinmico que est consubstanciado e atua nos pressupostos inconscientes da 
nossa cultura como um todo. Assim como as experincias genticas da criana so responsveis pela criao do homem, 
tambm os padres que se desenvolveram historicamente em nossa cultura moldaram e condicionaram cada um de ns 
como membros da sociedade. O paciente que entra no consultrio ou clnica de um psicoterapeuta traz com ele e 
consubstancia na estrutura do seu carter os padres e influncias histricos que tm sido dominantes em sua cultura. 
Quando um paciente, por exemplo, se esfora por racionalizar a sua ansiedade, atribuindo-a a esta ou quela causa 
intelectualmente respeitvel, ou quando se recusa a admitir que a ansiedade pode ter origem alm das razes lgicas que 
d, ele no est agindo, meramente, de acordo com um capricho individual. Est agindo como um filho bem treinado do 
perodo histrico moderno  um perodo que, desde os tempos de Descarte, no sculo XVII, at o nosso sculo XX, 
pressups uma dicotomia entre razo e emoo. 
Assim, a ansiedade do indivduo e os seus mtodos de enfrent-la esto condicionados pelo fato de que ele se encontra 
num determinado ponto do desenvolvimento da sua cultura. Do mesmo modo, as diferentes teorias de ansiedade, 
quer a apresentada por Espinosa, no sculo XVII, ou por Kierkegaard, no sculo XIX, ou por Freud, no sculo XX, s 
podem ser entendidas  medida que cada teoria pretendeu elucidar as experincias geradoras de ansiedade de pessoas que 
viveram nessa fase particular do desenvolvimento histrico da cultura. Embora prevista por Dilthey, no sculo XIX, essa 
abordagem histrica foi amplamente omitida das investigaes psicanalticas. Mas as exigncias da nossa situao histrica, 
no sculo XX  os prprios dilemas que temos analisado  foraram-nos a compreender que um aspecto profundamente 
importante do desenvolvimento da estrutura do carter foi esquecido em nossas investigaes. Agora que a importncia 
central da dimenso cultural dos problemas psicolgicos foi reconhecida por todas as partes interessadas, pode muito bem 
ser que a dimenso histrica seja a prxima rea a impor-se aos nossos esforos para compreendermos os problemas 
psicolgicos do homem. 
Agora, nas prximas pginas, interessar-nos-emos brevemente em examinar as contribuies feitas pelos filsofos para a 
teoria da ansiedade, visto que foram eles os que articularam e formularam o significado de seus respectivos perodos 
histricos. Anlises semelhantes poderiam ser feitas dos aspectos econmicos, religiosos ou artsticos de um perodo 
histrico. E, em virtude da relativa unidade da cultura num dado perodo, creio firmemente que tais anlises, partindo de 
abordagens diversas, chegariam a concluses praticamente anlogas. Tambm gostaria de dizer que no trato as formulaes 
filosficas como causa ou efeito mas, antes, como uma expresso do desenvolvimento cultural total de um perodo. 
Aqueles filsofos cujas formulaes se tomaram importantes para o seu sculo e os subseqentes so os que lograram 
penetrar e articular o significado e a direo dominantes do desenvolvimento da sua cultura.  neste sentido que as 
formulaes feitas pelos lideres intelectuais de um sculo se convertem em moeda corrente e comum, sob a forma de 
pressupostos inconscientes, de uma grande quantidade de pessoas, nos sculos seguintes. 
NA IDADE MDIA, o perodo de que nasceu a nossa era moderna, a sociedade era coletivista numa acepo normal. Cada 
cidado, fosse ele servo, clrigo ou cavaleiro, conhecia o seu lugar na hierarquia da Igreja e do Feudalismo; e todas as 
emoes eram canalizadas nas cerimnias comunitrias e religiosas. Os valores da vida aceitos eram claros, assim como a 
maneira de os atingir. Todas as emoes exigiam um sistema rgido de formas convencionais, pois sem elas a paixo e a 
ferocidade teriam devastado a vida. 1 Veremos, por estranho que isso parea, que os problemas com que nos defrontamos 
hoje so mais ou menos o oposto daqueles. 
Ocorreu ento uma mudana radical, com o Renascimento e a Reforma, refletida no advento de uma nova e entusistica 
crena no poder do indivduo, somada a um novo interesse cn-
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creto e emprico pela natureza fsica. Essas mudanas tiveram, como um de seus bvios resultados 
psicolgicos, o aumento da confiana do indivduo em que os problemas seriam superados pela sua prpria 
coragem pessoal, pelo conhecimento que ele podia adquirir atravs do estudo e das viagens, e desde que 
obedecesse  orientao da sua prpria conscincia em questes religiosas e ticas. Quando jovem. Descartes, 
por exemplo, deliberou viajar, numa atitude algo parecida com a que, hoje em dia, adotamos para seguir um 
programa de doutorado, O mtodo que se converteu no instrumento da nova devoo ao saber e  razo 
individual foi a Matemtica, tendo sido importada dos maometanos a matemtica rabe, no sculo XJII, atravs 
da Espanha, para a Europa Ocidental. A compreenso e o controle da natureza fsica passou a ser, portanto, a 
preocupao dominante e entusistica do homem ocidental. Esse empreendimento foi grandemente 
incentivado pela dicotomia cartesiana entre esprito e corpo, com o seu corolrio de que a natureza corporal e 
fsica podia ser entendida por leis mecnicas e matemticas. 
No final do Renascimento, isto , no sculo XVI, havia numerosos autores que, embora raramente estudados 
em relao aos desenvolvimentos psicolgicos modernos, o que  lamentvel, apresentaram idias germinais 
para o perodo moderno. Um deles foi Giordano Bruno (mais tarde queimado em auto-de-f pela Inquisio), 
cuja idia da Criao como crculos concntricos, com o Eu no centro, deu a orientao filosfica original para 
o modernismo. Um outro foi Jakob Boheme, um mstico alemo que foi precursor do pensamento protestante e 
que escreveu, com profundo discernimento, sobre a relao entre a ansiedade e o esforo criativo individual. E 
um terceiro foi Paracelso, um fsico do Renascimento que enfatizou a influncia da fora de vontade e do poder 
de deciso do prprio doente para recuperar a sade. Foi com Paracelso, segundo Tillich, que o mdico 
comeou conquistando, na cultura moderna, o papel que o sacerdote tinha desempenhado no medievalismo. 
O princpio intelectual orientador dessa revoluo cultural que, a partir do Renascimento resultou na queda do 
feudalismo e do absolutismo, levando, finalmente,  supremacia da burguesia, foi a crena nas capacidades 
racionais do indivduo. Isso foi designado como confiana na razo autnoma por Tillich, e como razo 
matemtica na terminologia de Cassirer, visto que a matemtica era considerada o principal instrumento da 
Razo. Em contraste com o coletivismo medieval, foi enfatizado nos sculos XV e XW que cada homem era um 
indivduo racional que podia chegar  autonomia em sua vida intelectual, econmica, religiosa e emocional. No 
sculo XVII, aps o Renascimento, essa nfase emergente na razo individual recebeu sua formulao 
filosfica na obra de Descartes, Espinosa, Leibniz e outros. Esse sculo, que cm seu grupo de pensadores 
poderosos e fecundos tambm inclua Locke, Galileu e Newton, produziu as idias que iriam dominar a maior 
parte do perodo moderno at o nosso tempo. 
Descartes, o pai da filosofia moderna,  particularmente interessante,  medida que fez da razo individual a 
base para a identidade psicolgica do Eu, em seu famoso princpio Penso, logo sou. A lenda conta que 
Descartes rastejou certa manh para dentro de seu forno, decidido a elaborar um conceito bsico para a sua 
filosofia, e que dele saiu  noite com aquele princpio. Essa lenda  um smbolo ilustrativo do isolamento 
individual, que sempre foi um aspecto do racionalismo que nos foi legado pelo sculo XVII. Podemos entender 
as implicaes individualistas da assero de Descartes de que a funo pensante  a base da identidade, 
comparando-a com o nosso conceito atual de que o eu conscientiza a sua identidade num contexto social; 
por exemplo, uma criana descobre que  um eu quando se v em relao com outras pessoas de sua famlia e 
diferenciada delas. 
Descartes traou uma ntida distino entre o esprito e os processos do pensamento, por um lado, e o corpo, 
por outro. O pensamento tem inteno, como ele disse, o corpo e a natureza tm extenso. Esta dicotomia 
perseguiu-nos em sculos posteriores e foi um ponto focal para o problema da ansiedade. Na poca, porm, a 
principal conseqncia da dicotomia de Descartes fo o seu corolrio de que o corpo, como toda a natureza 
fsica, era compreensvel e controlvel por leis mecnicas e matemticas. O caminho estava aberto para a 
crescente preocupao, em tempos modernos, com fenmenos que eram suscetveis de tratamento matemtico 
e mecnico, e para a crescente supresso da experincia no-mecnica e supostamente irracional Essa 
supresso de tudo o que no era mecnico acompanhou de perto, como causa e efeito, as necessidades do 
novo industrialismo que saiu do Renascimento. Pois o que podia ser calculado e medido tinha utilidade prtica 
no mundo rotineiro da vida industrial e o que era irracional no tinha. 
Ora, a confiana em que o corpo e a natureza fsica eram matematicamente controlveis teve efeitos de grande 
alcance na dissipao da ansiedade. Favoreceu a esperana de que as ameaas concretas de natureza fsica 
fossem superadas, assim como a promessa de vasta expanso das capacidades do homem para 
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satisfazer suas necessidades materiais. Ambas essas promessas seriam depois inteiramente justificadas pelo 
grande progresso nas Cincias Fsicas e no industrialismo. Alm disso, estava aberto um caminho para 
libertar o homem de temores irracionais, para dissolver a multido de temores de demnios, feiticeiros e 
formas de magia que tinham sido os focos de ansiedade nos ltimos dois sculos da Idade Mdia, assim como 
no prprio Renascimento. Como disse o Professor Tillich, os cartesianos, mediante o seu pressuposto de que a 
alma no podia influenciar o corpo, puderam desencantar o mundo. Um exemplo disso foi o fato da 
perseguio s bruxas, que atravessara todo o Renascimento at os comeos do sculo XVIII, ter sido 
superada atravs das formulaes cartesianas. 
Espinosa deu o passo final no sculo XVII; ele procurou tornar as emoes humanas controlveis atravs da 
r&o matemtica. Assim, apresentou-nos uma tica na forma de geometria. No nos empenharemos em 
resumir os astutos vislumbres psicolgicos de Espinosa, embora possamos assinalar que ele antecipou, quase 
palavra por palavra, alguns conceitos psicanalticos e psicossomticos ulteriores. Preferimos considerar 
apenas a sua convico de que o temor podia ser - superado pelo uso correto da razo. O medo, acreditava 
Espinosa,  essencialmente um problema subjetivo: Eu vi que todas as coisas que temia e que me temiam nada 
tinham de bom ou de mau em si mesmas,  medida que o esprito era afetado por elas. 2 Sustentou que o medo 
e a esperana andam sempre juntos: O medo no pode existir sem esperana nem a esperana sem medo. 3 
Ambos estes afetos so caractersticos da pessoa em dvida (isto , a pessoa que no aprendeu o uso correto 
da razo). O medo, escreveu ele, decorre de uma fraqueza da mente e, portanto, no pertence ao uso da 
razo... Portanto, quanto mais nos esforamos por viver sob as diretrizes da razo  concluiu ele  menos nos 
empenhamos em depender da esperana e mais nos entregamos a libertarmo-nos do medo e a superar a 
fortuna, tanto quanto possvel; e, finalmente, a dirigir as nossas aes pelo conselho certo da razo. A 
orientao de Espinosa sobre como superar o medo foi coerente com a nfase racional geral da poca; as 
emoes no so reprimidas mas, antes, tornam-se tratveis pela razo.  verdade, sustentou ele, que uma 
emoo  s pode ser vencida por uma emoo contrria e mais forte; mas isso pode ser realizado desde que se 
preste ateno ao ordenamento dos nossos pensamentos e imagens... Devemos pensar na coragem da mesma 
maneira, a fim de pr de lado o medo, isto , devemos enumerar e imaginar os perigos comuns da vida e de que 
maneira eles podem ser melhor evitados e vencidos pela coragem. 6 
 a palavra certo que nos salta aos olhos no escrito de Espinosa sobre o medo; a remoo da dvida, da 
esperana e do medo s  possvel se nos regermos pelo conselho certo da razo.  bvio que, se 
acreditarmos, como Espinosa pde acreditar, em seu sculo, que essa certeza intelectual e emocional  
realizvel; se, por exemplo, pudermos estar to certos sobre um problema tico quanto sobre uma proposio 
da Geometria, da resultar uma incalculvel segurana psicolgica. Uma tal f poder parecer muito atraente 
mas dificilmente atingvel pelos cidados do sculo XX, atormentados de ansiedade. Portanto, para se 
compreender a confiana de Espinosa, devemos recordar que o clima de expanso cultural do sculo XVII era 
radicalmente diferente do de Kierkegaard, Kafka e Freud nos sculos XIX e XX. 
Uma outra razo pela qual Espinosa podia ter semelhante confiana era a ampla e profunda base tica e 
religiosa do seu pensamento, que lhe poupava as dicotomias do racionalismo seiscentista seu contemporneo. 
Mas Espinosa fala sobre o medo, no sobre a ansiedade. A sua anlise situa-se apenas no limiar do problema 
da ansiedade. Ele aponta, por vezes, no sentido da ansiedade, como ao justapor a esperana e o medo, mas 
no cruza o limiar. Parece ter sido capaz de resolver os seus problemas ao nvel do medo e, por conseguinte, o 
problema central da ansiedade no se intrometeu em seu pensamento. Conclumos que, dada a situao 
cultural em que viveu, a confiana de Espinosa na razo serviu-lhe satisfatoriamente. 
MAS utt oun& e discordante voz nos chega do sculo XVII, a de Blaise Pascal. Embora semelhante, em seu 
gnio matemtico e cientfico, aos lderes intelectuais seus contemporneos, Pascal foi uma exceo  medida 
que no compartilhou da confiana reinante na razo individual e que experimentou diretamente o problema da 
ansiedade. No acreditava que a natureza humana, em toda a sua variedade e contradio, pudesse ser 
compreendida pela razo humana nem que a certeza racional 

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fosse possvel no domnio das emoes do homem, em qualquer acepo semelhante  certeza da Geometria e da Fsica. 
Contestou a confiana predominante na razo por que esta no levava suficientemente em conta o poder das emoes. A 
sua sentena clssica, O corao tem razes que a razo desconhece,  uma formulao admirvel do problema para 
Freud e a psicanlise, dois sculos depois. Pascal tinha um tremendo respeito pela razo e, de fato, acreditava ser ela a base 
da moralidade; mas assinalou que a razo, no indivduo,  influencivel por todos os sentidos, na prtica concreta. E a razo 
, com muita freqncia, usada em racionalizao para a vaidade, o interesse especial e a injustia. 
Pascal estava diretamente preocupado com a ansiedade, no s com a ansiedade que ele prprio experimentava mas 
tambm com a que acreditava ter observado em seus semelhantes. Citou, Domo prova, a perptua inquietao em que os 
homens passam suas vidas, e os incessantes esforos das pessoas, atravs das diverses, para furtar-se aos pensamentos 
sobre elas prprias. Relacionou a ansiedade com a situao precria e contingente da existncia do homem. Na verdade, 
Pascal sabia muito sobre o dilema.  por isso que as suas palavras soam, amide, to eloqentemente modernas e falam to 
diretamente  nossa condio. 
Sugerimos que a confiana na razo, tal como  interprelada pelos lderes intelectuais, serviu para dissipar a ansiedade. H 
uma certa confirmao dessa tese em Pascal, pois sendo ele aquele que no compartilhou dessa confiana  aquele que, de 
fato, no tinha realmente absorvido a confiana renascentista no indivduo  seria ele aquele que, simultaneamente, no pde 
evitar a ansiedade. 
Apesar da refutao de Pascal, a confiana na razo individual levou a melhor e serviu como conceito central e unificador 
nos sculos XVII e XVIII. O problema, em nossa recapitulao histrica, passa agora a ser o seguinte: Como foi que esses 
pensadores puderam superar as tendncias para o isolamento psicolgico inerente  natureza individualista dessa 
razo? Se Descartes, como um porta-voz da sua era, encontra a sua identidade pessoal no fato dele, como um indivduo 
encerrado em seu forno, ser capaz de pensar, como estabelecer ele a ponte para a sua comunidade? Como poder escapar 
aos sentimentos profundos de isolamento e  conseqente ansiedade? Se Leibniz faz do seu conceito bsico, a mnade, uma 
realidade distinta, sem comunicao com as outras mnades, como pode ele  e a era em cujo nome ele fala  escapar a um 
sentimento de bsica separao individual? Na realidade, os sentimentos de isolamento eram generalizados no 
individualismo nascente do Renascimento. Esse problema tinha de ser resolvido, se se quisesse que a comunidade 
psicolgica fosse realizada e a onipresente ameaa da ansiedade fosse dissipada. 
Uma resposta clara a esse problema foi dada, no pensamento seiscentista, pela crena na harmonia preestabelecida. Em sua 
forma econmica, tratava-se da crena de que cada homem perseguia os seus prprios motivos econmicos individuais, 
lutava competitivamente pelo seu prprio lucro econmico, uma luta que, ao mesmo tempo, redundaria em benefcio do 
seu grupo social. Foi esse o famoso conceito econmico do laissez-faire. No nvel psicolgico, acreditava-se que a livre 
explorao da razo individual conduziria, automaticamente, a uma harmonia das concluses do indivduo com as dos seus 
semelhantes e, por conseguinte, a uma harmonia do indivduo com a sociedade. No nvel filosfico, Leibniz expressou-o de 
um modo sumamente claro em sua assero de que cada mnade estava em harmonia preestabelecida com outras mnades e 
com a realidade universal. Assim, em teoria, o homem que corajosamente perseguia a razo individual no precisava sentir-
se isolado e, portanto, ansioso. Esta teoria era uni slido reflexo do estado cultural dos sculos XVII e XVIII; o laissez-
faire econmico individual, por exemplo, nas fases de expanso do capitalismo, aumentou tremendamente a capacidade de 
satisfao das necessidades materiais de cada um. Houve um progresso surpreendente e de largo alcance na cincia, na 
expanso do conhecimento e na ampliao da base dos direitos polticos individuais, como concomitantes dessa crena na 
razo individual e seus corolrios harmonsticos. 
Dado o meio cultural em que Espinosa, Leibniz e outros viveram e pensaram, parece que a sua confiana na razo 
individual serviu-lhes satisfatoriamente. Pois esse foi um tempo  mais ou menos paralelo ao sculo V na Grcia antiga  em 
que a cultura avanava para a unidade em seus simbolos bsicos. Assim, os cidados encontraram na sua sociedade e, 
particular- mente, na religio e na educao mais apoio psicolgico. 
MAS UMA CRESCENTE falta de unidade comeou se adensando em meados e a partir da segunda metade do sculo 
XIX, tornan-
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do-se depois evidente e muito mais extensa no sculo XX. Essa falta de unidade acompanhou de perto o grande progresso 
que tinha sido feito na aplicao da razo matemtica e das leis mecnicas  natureza fsica. As realizaes de grande 
alcance das Cincias Fsicas, com a promessa de tornar a Natureza escrava do homem, a par do vasto progresso do 
industrialismo e sua promessa de satisfao das necessidades fsicas do homem, deram amplo apoio  grande confiana que 
se depositara no esforo para compreender e controlar a Natureza por leis mecnicas. No sculo XIX, a anterior confiai.a 
na razo individual, relacionada a todos os aspectos da vida, transferira-se para uma nfase nas tcnicas e uma aplicao 
cada vez mais exclusiva da razo aos problemas tcnicos. 
Assim, no sculo XIX, a crena na razo autnoma, com a sua confiana na harmonia automtica como corolrio, comeou 
a se desintegrar. Os pensadores profticos desse sculo  Kierkegaard, Nietzsche e Marx, por exemplo   viram o que estava 
ocorrendo e descreveram as brechas na cultura contempornea que iriam, mais tarde, gerar uma ansiedade generalizada. 
Marx assinalou que, embora o esforo econmico individual tivesse aumentado o bem-estar social durante as fases de 
expanso do industrialismo, ele servia agora a uma finalidade contrria, na fase do capitalismo monopolstico e, na 
realidade, favorecia a alienao e a desumanizao do homem. Nietzsche advertiu que a cincia estava se convertendo 
numa fbrica e temia as suas conseqncias niilistas. Esse sculo XIX foi caracterizado por Cassirer como a era das 
cincias autnomas. Faltava um principio unificador. Cada pensador d-nos o seu quadro pessoal da natureza humana, 
foi.o comentrio de Cassirer sobre o sculo XIX; e, embora cada quadro se baseie em provas empricas, cada teoria 
converteu-se numa cama procustiana em que os fatos empricos so esticados para se ajustar a um padro preconcebido. 8 
Cassirer acreditava que esse antagonismo de idias constitua uma grave ameaa a toda a extenso da nossa vida tica e 
cultural,  
A crescente falta de unidade e compartimentao da cultura do sculo XIX pode ser claramente observada no aspecto 
psicolgico. Reside na tendncia para ver o homem como se con7 Descrevi isto com mais detalhes no meu livro Thc 
Meaning of Amtietij, 1950. 
Cassirer, Ernst, An Essay on Man, Yale University Press, New Haven, 1944, pg. 21. (Traduo brasileira: AntropoWgia 
Filo- s fica, Mestre Jou, 1972.) 
9 Ibid., pg. 22. 
sistisse em diferentes faculdades  por exemplo, razo, emoo e fora de vontade. Supunha-se que o homem do sculo 
XIX, como um homem de negcios ou industrial bem sucedido, tomava decises pela razo prtica e, depois, impunha 
essas decises atravs da sua poderosa fora de vontade. Assim, vemos esse cidado do sculo XIX tentando resolver 
os seus problemas psicolgicos pessoais pelas mesmos mtodos que tinham sido eficazes para dominar a 
natureza fsica e coroados de tanto xito no mundo industriei. A dicotomia de esprito e corpo do sculo XVII 
assumia agora a forma de uma separao radical entre a razo e a emoo, com o esforo voluntarista (vontade) entronizado 
como agente de deciso  e isto resultava, geralmente, na negao das emoes. A crena do sculo XVII no controle 
racional das emoes convertia-se agora no hbito de represso das emoes. 
Essa falta de unidade cultural e psicolgica iria produzir a falta de unidade interior e o trauma e, portanto, a ansiedade, num 
imenso nmero de pessoas no sculo XX. Tambm criou, especificamente, o duplo problema da ansiedade para 
Kierkegaard e Freud: Como poder ser superada a dicotomia da razo e da emoo, e como pode o indivduo isolado 
realizar a comunidade com seus semelhantes? 
Assim, Freud e Kierkegaard, como Nietzsche e Schopenhauer, procuraram, por diferentes caminhos, redescobrir as fontes 
dinmicas recalcadas, inconscientes e pretensamente irracionais do comportamento humano, unindo-as s funes 
racionais do homem. Somente em contraste com os antecedentes de compartimentao, no sculo XIX, da personalidade,  
que as descobertas de Freud relativas ao inconsciente e suas tcnicas destinadas a auxiliar o indivduo na obteno de uma 
nova unidade podem ser plenamente entendidas. Do mesmo modo,  contra esse fundo histrico que podemos 
compreender as restries de Freud  psicologia e  medicina acadmicas do seu tempo  duas disciplinas que estavam 
preocupadas com os elementos do comportamento que pudessem ser isolados, classificados e medidos de acordo com os 
mtodos tradicionais do racionalismo matemtico. Essas restries no eram, meramente, a expresso dos preconceitos ou 
destemperos de Freud, pois representavam uma questo concreta, notadamente, a necessidade urgente de superar a 
dicotomia entre razo e emoo. 
Como a obra de Freud, propriamente dita, no cabe num estudo das razes histricas, tratemos agora do espantoso gnio 
dos meados do ltimo sculo: &ren Kierkegaard. Kierkegaard s foi reconhecido neste pas nas ltimas duas dcadas, ao 
passo 
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que  conhecido na Europa h meio sculo como um dos grandes psiclogos de todos os tempos. 
O opsculo de Kierkegaard, Conceito da Angstia, foi originalmente publicado em 1844. Temos apenas de comparar 
Kierkegaard com Espinosa para apreciar como era diferente o clima cultural dos sculos XIX e XVII. Tanto Espinosa 
como Kierkegaard tinham amplas bases ticas e religiosas para o seu pensamento, e ambos eram extraordinariamente 
dotados de intuio e introviso psicolgica. Mas enquanto que Espinosa, cru sua poca, procurou, com xito considervel, 
a certeza racional na forma de provas geomtricas, em seu trato com o medo, Kierkegaard escreveria, em seu tempo, no 
mesmo grau em que a excelncia da prova aumenta, a certeza parece diminuir. Aquele que observou a gerao 
contempornea no negar, por certo, que a incongruncia nela evidente e a razo para a sua ansiedade e inquietao 
residem nisto: numa direo, a verdade aumenta em extenso, em massa, e, em parte, tambm em clareza abstrata, ao passo 
que a certeza diminui constantemente.  A certeza, acreditava ele, era uma qualidade interior da integridade, s atingvel 
pelo indivduo capaz de pensar, sentir e agir como uma unidade psicolgica e tica. 
Kierkegaard rejeitou, enfaticamente, o racionalismo tradicional como artificial. Argumentou com veemncia que o sistema 
de Hegel, que identificava o pensamento abstrato com a realidade, era uma forma de levar o homem, ardilosamente, a evitar 
a realidade da sua situao humana. Fora com a especulao, gritou ele, for com o sistema e de volta  realidade! 12 
Insistiu em afirmar que o pensamento no pode ser divorciado do sentimento e da vontade, que a verdade s existe para o 
indivduo  medida que ele a transforma em ao.  Quer dizer, a realidade s pode ser abordada e experimentada pelo 
indivduo todo, como um organismo que no  apenas pensante mas que tambm sente e atua. Assim, de um modo algo 
semelhante ao de Schelling, Nietzsche e at de Feuerbach e Marx, no aspecto sociolgico, Kierkegaard procurou superar a 
dicotomia da razo e emoo, voltando as atenes dos homens para a realidade da experincia imediata que est subjacente 
na subjetividade e na objetividade. 
10 Sren Kierkegaard, Conceito da Angstia, Editorial Presena, Lisboa, especialmente, captulo IV,  2., pgs. 17 e sege. 
11 lbicL, pg. 193. 
12 Lowrie, Walter, A Skort 14 e o! Kierkegaard, Prineeton, 
1944, pg. 116. 
13 Conceito da Angstia, pg. 193. 
Atacando especificamente o problema da ansiedade, Kierkegaard observou que escapamos  ansiedade neurtica  medida 
que nos tornamos livres como indivduos e, ao mesmo tempo, realizamos a comunidade com os nossos semelhantes. Para 
ele, a liberdade individual distinguia-se radicalmente da mera liberdade de restries e objees, a qual tinha sido uma 
concepo dominante da liberdade desde  Renascimento; e, ainda mais, devia se distinguir da pseudoliberdade vazia e 
mecnica do participante tfpico em nossas modernas rotinas comerciais e industriais burguesas. 
Para Kierkegaard, liberdade significava uma expanso da autoconscincia e da capacidade de atuar responsavelmente como 
um Eu. Significava uma capacidade crescente de fazer face s nossas possibilidades, tanto no desenvolvimento individual 
como no aprofundamento das relaes com os nossos semelhantes, juntamente com uma concretizao dessas 
possibilidades. Essa realizao das possibilidades  um aventurar contnuo em novas reas, como se v, muito 
simplesmente, no caso da criana em crescimento. Por isso  que Kierkegaard sustentou que a liberdade envolve sempre 
uma ansiedade potencial. A ansiedade, como ele expressou epigramaticamente,  a vertigem da liberdade. Convm 
salientar que Kierkegaard concebeu essa ansiedade como normal, no neurtica; o seu conceito era um precursor do que 
Otto Rank descreveria, mais tarde, como a ansiedade inerente  individuao e o que Kurt Goldstein descreveu como a 
ansiedade normal quando o indivduo se defronta com os inevitveis choques do crescimento e da experincia. Um elemento 
essencial na compreenso da ansiedade humana  que a gama de possibilidades de desenvolvimento do homem  muito 
maior do que a dos animais. 14 Quanto maior for a liberdade potencial do indivduo, sustentou Kierkegaard, ou, como 
poderamos expressar de um outro ngulo, quanto mais possibilidades criadoras o homem tiver, como indivduo, maior ser 
a sua ansiedade potencial. 
Mas uma caracterstica distinta do homem  a sua capacidade de conscientizao de suas prprias possibilidades. Isto 
levou Kierkegaard ao seu importante conceito da relao do conflito com a ansiedade. Ele acreditava que a ansiedade da 
criari14 Cf. a descrio do biologista Portmann da liberdade de movimento do homem em relao ao seu mundo  a 
abertura universal do homem  mencionada no captulo 1 deste livro. 
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a muito pequena era ambgua, irreflexiva; a criana no est cnscia da separao entre ela prpria 
e o seu meio. Mas, com o desenvolvimento da autoconscincia na criana  o que  interpretado em alguns 
crculos, embora eu considere inadequadamente descrito, como o desenvolvimento das funes do ego 
e superego  a escolha consciente entra em cena. A criana passa a estar cnscia de que os seus 
propsitos e desejos podem envolver choques com os pais e desobedincia a estes. A individuao (tornar-se 
um Eu) s  adquirida ento pelo preo de um confronto com a ansiedade inerente  tomada de uma posio 
contra o nosso meio ambiente ou com este. A autoconscincia possibilita o desenvolvimento individual 
orientado pelo Eu. Essa autoconscincia  a base, no indivduo em crescimenta, para a responsabilidade, o 
conflito interior e o sentimento de culpa. 
No dispomos de espao para aprofundar o tratamento penetrante e frtil, embora difcil e talvez controvertido 
do conflito, criatividade e culpa, por Kierkegaard. Basta dizer que ele acreditava que o conflito interior e o 
sentimento de culpa so sempre concomitantes da criatividade. No devem ser qualificados de neurticos nem 
resultam em ansiedade neurtica, desde que o indivduo possa fazer frente s suas crises criativas e resolv-
las por uma expanso ainda maior do Eu. Por exemplo, toda a possibilidade criadora no desenvolvimento 
individual envolve algum aniquilamento do passado, alguma quebra de formas ou padres pretritos; avanar 
suscita o inevitvel espectro do isolamento dos nossos semelhantes e dos nossos padres anteriores; a 
pessoa  tentada a manter-se no mbito do que  familiar e seguro, a no se aventurar. Mas s se obtm a 
individuao desde que se avance, apesar do conflito, da culpa, do isolamento e da ansiedade. Se a pessoa 
no avanar, o resultado ser, em ltima instncia, a ansiedade neurtica. 
Para Kierkegaard, a ansiedade neurtica  o resultado de um cerceamento interior que ocorre porque a pessoa 
tem medo da liberdade. Esse cerceamento envolve o bloqueio de reas de liberdade de experincia ou de 
conscincia. Neste ponto, temos um dos primeiros enunciados do processo que mais tarde seria denominado 
represso por Freud e dissociao por Sullivan. Tal como estes dois estudiosos do homem, Kierkegaard 
tambm acreditava que, quando tentamos evitar o confronto com um temor real ou uma experincia que 
envolve ansiedade normal, empenhamo-nos num bloqueio da conscincia e da experincia, em que a 
ansiedade neurtica  a conseqncia ulterior. 
O termo adequado de Kierkegaard para a neurose era hermetismo. A pessoa hermtica no se fecha consigo mesma; ela 
fecha-se a si mesma e aos outros. Esta personalidade  caracterizada por vrias formas de rigidez, no-liberdade, vacuidade 
e tdio. 
 pessoa hermtica falta comunicabilidade, ao passo que a liberdade est continuamente comunicando, escreveu 
Kierkegaard. Assim, os crculos concntricos do eu que se amplia e aprofunda envolvem, ao mesmo tempo, crculos cada 
vez mais amplos de relaes significativas com o nosso semelhante, Ele acreditava que as duas causas da ansiedade 
neurtica  a falta de unidade no Eu e a falta de acordo com o nosso semelhante  so superadas por processos simultneos; 
superar uma  superar a outra, ao mesmo tempo. Mas tanto a unidade como a concordncia s podem ser realizadas se o 
indivduo tiver a coragem de enfrentar e ir alm das ameaadoras experincias do isolamento e da ansiedade, que so 
normais no sentido de que no podem ser evitadas, se a pessoa quiser preencher as suas possibilidades na realizao do 
prprio Eu. Assim,  compreensvel que Kierkegaard considerasse a ansiedade como um mestre; de fato, ele sustentou que 
a ansiedade era melhor mestre do que a realidade, j que esta pode ser temporariamente evitada, ao passo que a ansiedade  
um educador onipresente que carregamos em nosso prprio ntimo. 
NESTE CAPTULO  se me for permitido um gesto to acadmico como oferecer um resumo  descrevi brevemente dois 
problemas em nossa explorao histrica: a dicotomia de razo e emoo, e o isolamento do indivduo em relao  sua 
comunidade. Sublinhei que esses problemas foram e so fundamentais para o problema da ansiedade no perodo moderno. 
Indiquei como esses problemas foram enfrentados e como a ansiedade neles inerentes foi dissipada, em considervel 
medida, durante a maior parte do perodo moderno, desde o Renascimento, por vrias formas da crena em que, se o 
indivduo perseguisse energicamente o seu prprio lucro econmico e a sua prpria razo, da resultaria automaticamente a 
harmonia com os seus semelhantes e o seu mundo metafsico. Descrevi como essa crena perdeu sua eficcia no sculo 
XIX, quando a razo individual se converteu em represso intelectualista, e a economia do laissez-toire se transformou 
numa racionalizao para a desumanizao e mecanizao do indivduo. 
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Em concluso, posso apenas sugerir como esses problemas esto relacionados com o problema da ansiedade 
no sculo XX. Primeiro, desejo apresentar uma hiptese, a saber, a de que, quando os pressupostos, as 
suposies inconscientes de valores, numa sociedade so geralmente aceitos, o indivduo pode fazer face s 
ameaas na base desses pressupostos. Ele reage ento s ameaas com medo, no com ansiedade. Mas 
quando os prprios pressupostos so ameaados, numa sociedade, o indivduo no dispe de uma base para 
orientar-se quando se defrontar com uma ameaa especfica. Como a cidadela ntima da sociedade est, ela 
prpria, num estado de confuso e mudana traumtica, durante tais perodos, o indivduo no dispe de 
um terreno slido onde possa fazer frente s ameaas especficas que se lhe deparam. O resultado, para o 
indivduo,  desorientao profunda, confuso psicolgica e, por conseguinte, pnico e ansiedade agudos ou 
crnicos. Ora, no  esse o estado da nossa cultura no sculo XX?  minha convico, por outras palavras, de 
que a desintegrao dos pressupostos da nossa cultura histrica, que assinalei neste captulo, est 
intimamente relacionada com a ansiedade generalizada do sculo XX. E tambm est relacionada com as 
dificuldades particulares do dilema humano que devemos defrontar em nosso tempo. 
Num tal perodo, quando a sociedade deixa de prover o indivduo com uma adequada orientao psicolgica e 
tica, ele  forado, muitas vezes em desespero, a explorar profundamente o seu prprio ntimo para descobrir 
uma nova base de orientao e integrao. Foi essa necessidade que fez surgir a psicanlise e a nova 
psicologia dinmica; com efeito, a ajuda ao indivduo para descobrir uma nova unidade em si mesmo  a grande 
contribuio da psicologia, a partir de Freud. A satisfao dessa necessidade do homem moderno, a de 
encontrar o seu significado dentro de si mesmo, foi tambm o que deu azo ao desenvolvimento do 
existencialismo. 
Mas, no tocante a outro e mais amplo problema  a construo de novas formas de comunidade tica e 
psicolgica, para que o indivduo possa relacionar-se significativamente com os seus semelhantes no trabalho 
criativo e no amor  a nossa tarefa est apenas no comeo. Creio que a resoluo desse desafio e, portanto, a 
superao de uma fonte primria de ansiedade, requer o trabalho combinado no s de psiclogos e 
psicopatologistas mas tambm de trabalhadores em todos os campos da cincia social e da religio, assim 
como da filosofia e das artes. J disse que, nos perodos em que os valores de uma cultura tm unidade e 
coerncia, o cidado dispe de meios para enfrenta e rechaar a sua ansiedade. Quando os valores esto 
desunidos, o indivduo, sentindo-se sem amarras, tende para esquivar-se e reprimir a sua ansiedade 
normal. Assim, ele prepara o terreno para o desenvolvimento da ansiedade neurtica. Por 
conseguinte, os valores e a ansiedade esto intimamente correlacionados entre si.  sobre isto que 
passaremos agora a falar. 
